Agosto Verde: O Papel da família na construção da autoestima

Por Maxsuel Santos – Consultor Pedagógico

Os primeiros vínculos moldam a forma como uma criança aprende a se ver, e a
se amar, existe um momento muito silencioso que acontece dentro de casa, quase sem que
a gente perceba. É quando uma criança pequena faz algo (desenha um rabisco, dá um
passo, fala uma palavra nova) e olha para cima. Não para ver o que fez. Para ver o rosto
de quem ela ama.
É nesse olhar que tudo começa. Porque tudo que ela encontra nesse rosto é
guardado em camadas: se atenção ou distração, orgulho ou indiferença, acolhimento ou
crítica. Essas camadas são a base na construção da autoestima. Eu costumo dizer que, as
crianças são como uma folha em branco que vai sendo rabiscada com o tempo, não
nascem sabendo quem são, aprendem isso nos olhos de quem as ama, de quem elas
enxergam como referência. Que rabisco você quer deixar para elas?
A primeira infância, que compreende os primeiros seis anos de vida, é o período
mais sensível do desenvolvimento humano. É quando o cérebro se forma com uma
velocidade impressionante, é quando as conexões emocionais se estabelecem, quando a
criança começa a construir uma imagem de si mesma. E a família é o chão, onde tudo
isso começa.

O QUE É AUTOESTIMA NA PRIMEIRA INFÂNCIA?

Autoestima não é vaidade. Não é arrogância. E, na infância, definitivamente não
é algo que a criança constrói sozinha. A autoestima é a percepção que a criança tem de si
e é construída enquanto ela observa se é vista como capaz, se sente que é amada e digna
de cuidado e atenção. É a resposta interna que ela desenvolve para uma pergunta que pode
não formular em palavras, mas vive o tempo todo: “Eu importo?” E quem responde essa
pergunta, nos primeiros anos de vida, é a família. Com gestos, com palavras, com
presença, ou com a ausência de tudo isso.

Uma criança que é ouvida aprende que sua voz tem valor, uma criança que é
abraçada aprende que seu corpo merece cuidado, uma criança que é celebrada nas
pequenas conquistas aprende que o esforço vale a pena. Tudo isso é a autoestima sendo
construída, tijolo por tijolo, dia por dia, rabisco por rabisco.
Rafael Bisquerra, um dos nomes que mais estudou o tema, chama essa habilidade
de competência emocional: a capacidade de reconhecer o que se sente, nomear e saber
lidar com isso sem se afogar. Essa competência não nasce pronta, ela se aprende no colo,
no exemplo, na forma como o adulto reage quando a criança chora, grita ou se frusta.
Cada vez que a gente nomeia o que a criança sente em vez de silenciá-la, estamos
ensinando um vocabulário emocional que ela vai carregar para a vida toda.

COMO A FAMÍLIA CONSTRÓI ESSA AUTOESTIMA

Não existe família perfeita e esse texto é um convite à reflexão. Porque às vezes a
gente machuca sem querer. Com uma palavra dita no cansaço, com uma comparação feita
sem pensar, com uma crítica que surgiu com a intenção de motivar, mas foi recebida como
um peso. A criança pequena não tem ainda a maturidade para separar “o que eu fiz” de
“quem eu sou”. Para ela, quando a gente critica o que ela fez, ela ouve que ela é assim e
associa a crítica ao que ela é. Por outro lado, pequenas atitudes cotidianas têm um poder
enorme de construir uma boa autoestima: Chamar pelo nome com carinho, parece
simples, mas ensina que ela tem identidade e que essa identidade é valorizada, deixá-la
tentar mesmo que demore, mesmo que faça errado. A autonomia é uma das bases da
autoestima, validar o que ela sente, dizer “eu entendo que você está com raiva” em vez
de “para de chorar” ensina que as emoções dela são reais e têm lugar, celebrar o processo,
não só o resultado, o “você tentou muito” é mais acolhedor que apontar “você ganhou”, e
estar presente de verdade, não apenas no mesmo ambiente, mas com atenção. O celular
no bolso, o olho no olho, o brincar junto.

Howard Gardner afirma que, não existe um único tipo de inteligência. Uma
criança que não é a mais rápida com números pode ser a mais sensível com as pessoal, a
mais criativa com as mãos. Quando a família só valoriza um tipo de talento, a criança não
se encaixa naquele molde e aprende a se sentir menos. Reconhece os múltiplos jeitos de
ser inteligente é também reconhecer os múltiplos jeitos de merecer orgulho.

O QUE O AGOSTO VERDE NOS CONVIDA A PENSAR

O Agosto Verde existe para lembrar que a primeira infância não é uma fase de
espera, é uma fase de chegada. É quando tudo que vai formar esse ser humano está sendo
plantado.

Leia também: O papel das experiências na infância

A autoestima plantada nesses primeiros anos vai brotar ao longo de toda a vida.
Na criança que consegue fazer amigos porque acredita que merece amizade, no
adolescente que sabe dizer não porque aprendeu que seus limites importam, no adulto que
escolhe vínculos saudáveis porque, lá atrás, alguém mostrou para ele como o amor com
cuidado se parece. Cuidar da autoestima de uma criança não é mimá-la. É preparar o chão
para que ela caminhe com firmeza pelo resto da vida.
Contudo, esse cuidado não é responsabilidade só da família. A escola, os
educadores, os profissionais que trabalham com a primeira infância, todos somos parte
desse ambiente que a criança usa como espelho para se ver.

Se você trabalha com crianças pequenas, saiba: você também é família afetiva
para muitas delas. Tem crianças que chegam na escola carregando um olhar que ainda
não aprendeu a se ver com bondade e você pode ser o adulto que muda isso, não com
grandes intervenções, mas com o “bom dia” dito com atenção, o nome lembrado, o
desenho valorizado, o choro acolhido, a presença de quem acredita que aquela criança
importa, antes mesmo que ela acredite nisso por si mesma. No final, a autoestima não é
um traço de personalidade que a criança traz pronto, é um presente que a gente oferece,
em doses pequenas, todos os dias, nas formas mais simples de amor.
Agosto Verde é um lembrete de que esses dias não voltam. Mas o que a gente
planta neles, fica.


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