Por Mayara Magda – Consultora Pedagógica
Abril é reconhecido como o mês de conscientização sobre o autismo, um período dedicado à promoção da compreensão, do respeito e da visibilidade das dificuldades, bem como das possibilidades de inclusão das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com base no DSM-V o TEA caracteriza-se por alterações nas habilidades de comunicação e na interação social, podendo ocorrer com ou sem déficit intelectual, envolvendo desafios na reciprocidade socioemocional, na capacidade de estabelecer vínculos e no compartilhamento de ideias, interesses e sentimentos.
No contexto escolar, essas dificuldades tornam-se mais perceptíveis, pois a escola é um espaço de convivência social, aprendizagem e desenvolvimento humano. Nesse ambiente, o estudante não deve ser visto apenas como um número de matrícula, mas como um sujeito singular, inserido em uma realidade social, com necessidades específicas, potencialidades e formas próprias de aprender e se relacionar. Assim, a inclusão vai além do diagnóstico e do acesso físico à escola: trata-se de construir um ambiente que favoreça a participação ativa, o acolhimento e o sentimento de pertencimento do estudante com TEA.

Essa responsabilidade não se restringe apenas ao professor, mas envolve toda a comunidade escolar. Professores, gestores, funcionários, famílias e estudantes compartilham o compromisso de promover uma cultura inclusiva, baseada no respeito às diferenças, na empatia e na valorização da diversidade, contribuindo para que a escola seja, de fato, um espaço de formação humana e social para todos.
O papel da escola na inclusão de alunos com TEA
Compreender o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é o primeiro passo para promover uma inclusão mais eficaz. No ambiente escolar, reconhecer que o processamento de informações em pessoas com o espectro autista ocorre de forma diferente é fundamental para entender que comportamentos considerados “desafiadores” podem, na verdade, ser respostas a estímulos dolorosos ou a dificuldades na compreensão de instruções.
Dentro da escola, os desafios são diversos, mas é nesse espaço que crianças, adolescentes e adultos com o transtorno têm a oportunidade de ampliar seu contexto social, fortalecer suas interações e desenvolver habilidades necessárias para a convivência em sociedade. A prática escolar não garante apenas o conhecimento científico, mas também o aprender a ser, a fazer e a conviver no mundo, promovendo o desenvolvimento integral do estudante.
Sabe-se que mudanças não são simples. Reaprender, acolher e lidar com uma realidade cada vez mais presente no cotidiano exige uma prática escolar integradora, que considere as particularidades da pessoa com TEA em um ambiente que, inicialmente, não foi pensado para atender às suas necessidades. Nesse sentido, a escola precisa repensar seu funcionamento historicamente constituído e avançar na construção de um espaço que valorize e acolha as diversidades.
Mais do que garantir acessibilidade física, é necessário promover adaptações no ambiente e nas práticas pedagógicas, como o uso de iluminação adequada, a redução de ruídos sonoros nos momentos de troca de aulas ou intervalo, a criação de cantos de regulação emocional, o fortalecimento da empatia, a capacitação dos profissionais e a adoção de uma comunicação clara e direta, com rotinas e previsibilidade sempre que possível. Essas ações contribuem para um ambiente mais acolhedor, estruturado e inclusivo para todos.
Estratégias Socioemocionais Aplicadas ao TEA na Sala de Aula
A educação socioemocional tem ganhado espaço nas escolas por contribuir para o desenvolvimento do autoconhecimento e da convivência em sociedade. Rafael Bisquerra, doutor em Ciências da Educação e presidente da Rede Internacional de Educação Emocional e Bem-Estar (RIEEB), destaca que “O desenvolvimento da competência emocional por meio da educação socioemocional contribui para o melhor do desempenho acadêmico” (2023). Quando aplicada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa abordagem se torna ainda mais relevante, pois ajuda a responder a necessidades que vão além do conteúdo escolar, preparando o estudante para a vida em comunidade. Nesse contexto, o pentágono das emoções proposto por Bisquerra surge como uma importante ferramenta para promover a inclusão e o desenvolvimento integral dos alunos. O modelo é organizado em cinco competências: consciência emocional, regulação emocional, autonomia emocional, competência social e competências para a vida e o bem-estar, contribuindo para que o estudante com TEA desenvolva não apenas habilidades cognitivas, mas também emocionais e sociais, fortalecendo sua participação no ambiente escolar.
A consciência emocional, por exemplo, ajuda o aluno a reconhecer e nomear sentimentos como alegria, medo, ansiedade e frustração. Com o apoio do professor, o uso de cartões de emoções, imagens e atividades de identificação de expressões faciais facilita esse processo e permite que o estudante compreenda melhor suas próprias reações. Reconhecer as próprias emoções e a dos outros ajuda a melhorar a comunicação das suas necessidades.

Já a regulação emocional trabalha a forma como o estudante lida com as emoções. Mudanças de rotina, excesso de estímulos ou dificuldades de comunicação podem provocar crises em alunos com TEA, e a escola pode contribuir oferecendo ambientes estruturados, espaços tranquilos, objetos de conforto e técnicas de respiração. Essas estratégias ajudam o aluno a se reorganizar emocionalmente e retomar as atividades com mais segurança.
A autonomia emocional também é um ponto importante. Pequenas responsabilidades, escolhas guiadas e organização de tarefas ajudam o estudante a desenvolver autoestima e confiança. Ao perceber que é capaz de participar das atividades e contribuir com o grupo, o aluno se sente mais seguro e pertencente ao ambiente escolar.
No campo das relações, a competência social é trabalhada por meio da mediação do professor e de atividades cooperativas. Jogos com regras simples, trabalhos em grupo e situações de interação orientada ajudam o estudante com TEA a desenvolver habilidades sociais, como comunicação, respeito e resolução de conflitos, fortalecendo os vínculos com colegas e professores.
Por fim, as competências para a vida e o bem-estar reforçam a importância de um ambiente acolhedor e inclusivo. A parceria entre escola, família e equipe multidisciplinar garante que o desenvolvimento socioemocional aconteça de forma contínua, contribuindo para a qualidade de vida do estudante.
Com a aplicação do pentágono das emoções, a inclusão deixa de ser apenas acesso à sala de aula e passa a ser uma prática real de pertencimento. A escola assume, assim, um papel fundamental na formação de cidadãos mais conscientes, autônomos e preparados para a vida em sociedade.
Inclusão Vai Além do Acesso: Envolve Pertencimento
Quando pensamos em inclusão, imaginamos pessoas com deficiência dentro de um ambiente convivendo com todos. No entanto, muitas vezes essa “inclusão” não acontece da forma que deveria. Espaços não adaptados e a falta de preparo para lidar com as diferenças impactam diretamente a vida em sociedade; assim, vemos o acesso ao ambiente, mas não o pertencimento a ele.

Para que a inclusão seja realmente efetiva, principalmente no ambiente escolar com estudantes com TEA, é preciso pensar para além de apenas colocar pessoas com deficiência em um local específico. A verdadeira inclusão nasce quando ele se sente acolhido, ouvido e respeitado, quando percebe que sua presença importa e que suas diferenças são reconhecidas e valorizadas. O pertencimento se constrói nas pequenas interações do cotidiano, no respeito ao tempo de cada um e no olhar atento às potencialidades que se desenvolvem silenciosamente em cada sujeito.
Nessa perspectiva, a educação socioemocional apresenta-se como um caminho sensível e humano para a inclusão real, promovendo o desenvolvimento de habilidades e fortalecendo um ambiente mais empático, acolhedor e solidário. O estudante deixa de ser visto apenas pelo diagnóstico e passa a ser reconhecido por suas capacidades, talentos e possibilidades de convivência com o grupo. A inclusão, então, deixa de ser um ato isolado e passa a ser um movimento contínuo de convivência, aprendizagem e desenvolvimento de competências que consideram o ser humano em sua integralidade.
Promover a inclusão do estudante com Transtorno do Espectro Autista vai além de garantir acesso: é reconhecer que cada pessoa aprende de maneira única e que a escola precisa estar preparada para acolher essa diversidade com sensibilidade e responsabilidade. Assim, a inclusão deixa de ser apenas um discurso e se transforma em uma realidade possível, construída com respeito, empatia e pertencimento, garantindo que todos tenham oportunidades reais de aprender, conviver e se desenvolver plenamente na sociedade.
Referencias (Lidas e utilizadas)
ALAGOAS. Compreendendo o TEA: Um Guia para a Família. Secretaria de Estado da Cidadania e da Pessoa com Deficiência (SECDEF/AL), 2024. Disponível em: https://www.secdef.al.gov.br/documentos?task=download.send&id=94&catid=33&m=0 Acesso em: 02 de abril de 2026
Associação Psiquiátrica Americana. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (5ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
BENNIE, Maureen. Autistic SPACE – Uma Estrutura para Educação Inclusiva. Disponível em: https://autismawarenesscentre.com/autistic-space-a-framework-for-inclusive-education/ Acesso: 30 de março de 2026
BISQUERRA ALZINA, Rafael. Psicopedagogía de las emociones. Madrid: Síntesis, 2009
Canal Autismo. “Abordagens e benefícios da inclusão escolar de crianças autistas”. Disponível em: https://www.canalautismo.com.br/artigos/abordagens-e-beneficios-da-inclusao-escolar-de-criancas-autistas Acesso em: 31 de abril de 2026.
MORENO, Esteban T. Dr. Rafael Bisquerra: “El desarrollo de competencias emocionales a través de la educación socioemocional contribuye a mejorar el rendimiento académico”. Universidad de La Playa Ancha. 2023. Disponível em: https://upla.cl/noticias/2023/04/21/dr-rafael-bisquerra-el-desarrollo-de-competencia-emocionales-a-traves-de-la-educacion-socioemocional-contribuye-a-la-mejor-del-rendimiento-academico/ Acesso: 30 de março de 2026.
