{"id":2155,"date":"2025-11-19T16:40:41","date_gmt":"2025-11-19T19:40:41","guid":{"rendered":"https:\/\/hugeducation.com.br\/?p=2155"},"modified":"2025-11-19T16:43:13","modified_gmt":"2025-11-19T19:43:13","slug":"por-uma-literatura-e-uma-educacao-socioemocional-para-alem-do-20-de-novembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hugeducation.com.br\/es\/2025\/11\/19\/por-uma-literatura-e-uma-educacao-socioemocional-para-alem-do-20-de-novembro\/","title":{"rendered":"Por uma literatura e uma educa\u00e7\u00e3o socioemocional para al\u00e9m do 20 de novembro"},"content":{"rendered":"<p>Por Rafael Lobo &#8211; Consultor Pedag\u00f3gico<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura exerce um papel fundamental no contexto cultural e social de um povo. Trata-se de uma manifesta\u00e7\u00e3o universal, uma vez que n\u00e3o existe cultura que&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; viva sem entrar em um contato com algum tipo de fabula\u00e7\u00e3o ou o contar\/criar hist\u00f3rias. Sua import\u00e2ncia n\u00e3o se limita \u00e0 for\u00e7a imaginativa, mas estende-se ao seu car\u00e1ter humanizador, seja por meio da oralidade ou da escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias narradas por nossos av\u00f3s e parentes constituem parte de nossa personalidade e ainda hoje nos auxiliam a ampliar nossa vis\u00e3o de mundo. Express\u00f5es como \u201cquem bate na m\u00e3e ou no pai vira lobisomem\u201d ou \u201cvai correr bicho \u00e0 noite!\u201d representam narrativas que cumpriram a fun\u00e7\u00e3o de estabelecer fundamentos importantes em suas comunidades. Goethe, um escritor alem\u00e3o reconhecido, tem uma frase muito interessante sobre literatura, ele diz que, homem entra na literatura e, quando sai dela, sai mais rico e compreendendo melhor o mundo. No entanto, diversas constru\u00e7\u00f5es do papel da literatura, principalmente do s\u00e9culo do pr\u00f3prio Goethe, partem de uma perspectiva colonizadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, considerando o Novembro Negro e a luta pelo resgate da contribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o afro-brasileira, cabe perguntar: o que pensadores e escritores negros trazem nos seus textos sobre a fun\u00e7\u00e3o da literatura? E, principalmente, qual a sua import\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o humanizadora de nossa autonomia emocional?<\/p>\n\n\n\n<p>Tomemos, como primeiro exemplo, Maria Firmina dos Reis, escritora, professora e mulher negra. Seu primeiro romance, \u00darsula, foi assinado sob o pseud\u00f4nimo \u201cUma Maranhense\u201d, devido \u00e0 censura e \u00e0 impossibilidade de aceita\u00e7\u00e3o, no s\u00e9culo XIX, de escritos produzidos por mulheres, especialmente mulheres negras. Seus textos foram recuperados por pesquisadores no s\u00e9culo XXI, permitindo que sua voz ecoasse novamente. Em um de seus poemas, a autora silencia uma palavra que n\u00e3o pode ser dita, termo que podemos interpretar como \u201cliteratura\u201d ou at\u00e9 \u201cliberdade\u201d. Trata-se de uma literatura que ressoa as vozes e os lamentos daqueles homens e mulheres negros(as) lan\u00e7ados ao mar, que por meio da palavra escrita encontraram a liberdade.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><strong>Ah! N\u00e3o Posso<\/strong><\/p><cite><br>Se uma frase se pudesse<br>Do meu peito destacar;<br>Uma frase misteriosa<br>Como o gemido do mar,<br>Em noite erma, e saudosa,<br>De meigo, e doce luar.<br>\u00a0<br>Ah! se pudesse!&#8230; mas muda<br>Sou, por lei, que me imp\u00f5e Deus!<br>Essa frase maga encerra,<br>Resume os afetos meus;<br>Exprime o gozo dos anjos,<br>Extremos puros dos c\u00e9us.<br>\u00a0<br>Entretanto, ela \u00e9 meu sonho,<br>Meu ideal inda \u00e9 ela;<br>Menos a vida eu amara<br>Embora fosse ela bela.<br>Como rubro diamante,<br>Sob fin\u00edssima tela.<br>\u00a0<br>Se diz\u00ea-la \u00e9 meu empenho,<br>Reprimi-la \u00e9 meu dever:<br>Se se escapar dos meus l\u00e1bios,<br>Oh! Deus, &#8211; fazei-me morrer!<br>Que eu pronunciando-a n\u00e3o posso<br>Mais sobre a terra viver.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<br>[ CANTOS \u00c0 BEIRA MAR, S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, 1871, pags. 45-46 ]<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><\/pre>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em seguida, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, escritora mineira, atuante nos movimentos de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura negra brasileira, a autora estreou na cena liter\u00e1ria em 1990 atrav\u00e9s da publica\u00e7\u00e3o de contos e poemas na s\u00e9rie Cadernos Negros. Sua produ\u00e7\u00e3o abrangente, que percorre g\u00eaneros como poesia, fic\u00e7\u00e3o e ensaio, tem conquistado reconhecimento progressivo e ampliado seu alcance junto ao p\u00fablico leitor. Concei\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da escrita de vozes de mulheres negras, traz no seu poema a tradi\u00e7\u00e3o da literatura passada atrav\u00e9s da ancestralidade de todas as vozes-mulheres silenciadas:<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\"><div class=\"wp-block-group__inner-container\">\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Vozes-Mulheres<\/p><cite>A voz de minha bisav\u00f3<br>ecoou crian\u00e7a<br>nos por\u00f5es do navio.<br>ecoou lamentos<br>de uma inf\u00e2ncia perdida.<br>\u00a0<br>A voz de minha av\u00f3<br>ecoou obedi\u00eancia<br>aos brancos-donos de tudo.<br>\u00a0<br>A voz de minha m\u00e3e<br>ecoou baixinho revolta<br>no fundo das cozinhas alheias<br>debaixo das trouxas<br>roupagens sujas dos brancos<br>pelo caminho empoeirado<br>rumo \u00e0 favela<br>\u00a0<br>A minha voz ainda<br>ecoa versos perplexos<br>com rimas de sangue<br>e fome.<br>\u00a0<br>A voz de minha filha<br>recolhe todas as nossas vozes<br>recolhe em si<br>as vozes mudas caladas<br>engasgadas nas gargantas.<br>\u00a0<br>A voz de minha filha<br>recolhe em si<br>a fala e o ato.<br>O ontem \u2013 o hoje \u2013 o agora.<br>Na voz de minha filha<br>se far\u00e1 ouvir a resson\u00e2ncia<br>O eco da vida-liberdade.<br>\u00a0\u00a0\u00a0 (Poemas de recorda\u00e7\u00e3o e outros movimentos, p. 10-11).<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O escritor e cineasta alagoano Lucas Litrento, semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos de Literatura em 2021. Lucas gosta de falar que a literatura \u00e9 um \u00f4nibus lotado: h\u00e1 um itiner\u00e1rio, mas tudo pode sair do lugar, o \u00f4nibus velho pode quebrar ou ser assaltado, as pessoas podem contar as hist\u00f3rias mais esquisitas do mundo entre uma esquina e outra. A literatura de Lucas Litrento ressoa as vozes do rap e da cultura hip-hop, que em suas rimas e estruturas narrativas constroem cr\u00f4nicas das ruas e dos bairros onde vivem. Dessa forma, ele amplifica vozes que partilham de um lugar comum, mas de uma forma \u00fanica e criativa. Em \u201cverde neon\u201d, uma voz ancestral toma os movimentos do sujeito do texto, exaltando a ancestralidade, mas tamb\u00e9m trazendo para atualidade, em que a cor verdade, atribu\u00edda ao orix\u00e1 ox\u00f3ss\u00ed, nas religi\u00f5es afro-ind\u00edgenas, aparece aqui em uma cor verde neon, que exalta um brilho ultra-forte, construindo assim uma encruzilhada entre a tradi\u00e7\u00e3o e a mordernidade. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Verde Neon<\/p><cite>Sonho: estou dentro do banheiro<br>verde neon brota do meu corpo<br>ox\u00f3ssi dentro do meu corpo<br>sonho: ox\u00f3ssi usa minha boca<br>entoa rimas que n\u00e3o podem sair<br>do limite das p\u00e1lpebras fechadas<br>ox\u00f3ssi usa meus bra\u00e7os<br>a curva no ar que n\u00e3o se repete<br>fora do limite das p\u00e1lpebras fechadas<br>\u00a0<br>ox\u00f3ssi n\u00e3o repete nenhum movimento<br>nenhuma s\u00edlaba<br>somente a mem\u00f3ria<br>\u00a0<br>at\u00e9 que a curva<br>se perca<br>no ar inexistente<br>e o verde neon<br>(musgo na pele lama)<br>apague,<br>se poss\u00edvel.<br>\u00a0<br>(Poesia, Ru\u00eddo &#8211; Tr\u00eas poemas de Lucas Litrento, 9 de mar\u00e7o de 2020)<br>\u00a0<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>A literatura negra, a partir de suas escreviv\u00eancias e narrativas, resgatam a palavra n\u00e3o dita como tenta Maria Firmina. N\u00e3o somente como uma ferramenta pedag\u00f3gica que nos leva ao deleite da leitura e da identifica\u00e7\u00e3o, gerando emo\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis ou desagrad\u00e1veis, mas como direito humano fundamental, o direito \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria, \u00e0 identidade e \u00e0 repara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Quando Lucas Litrento transforma o verde de Ox\u00f3ssi em neon contempor\u00e2neo, ou quando Concei\u00e7\u00e3o Evaristo faz da escrita ato de \u201crestaura\u00e7\u00e3o de humanidade\u201d, est\u00e3o exercendo o direito \u00e0 autonomia emocional na perspectiva de Bisquerra: o direito de nomear suas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es a partir de referenciais culturais suas e de seu povo. Esta \u00e9 a base para a constru\u00e7\u00e3o do bem-estar, poder construir-se a partir de narrativas que n\u00e3o apenas incluam, mas restaurem e previnam que o passado volte a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o fil\u00f3sofo e educador Abdias Nascimento, um dos fundadores do Teatro Experimental do Negro, afirma que suas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias eram instrumentos de cura coletiva. Ele conseguia mostrar, em suas pe\u00e7as, como a representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica permite a reconstru\u00e7\u00e3o da autoestima e o enfrentamento do \u201ctrauma do apagamento\u201d. A educa\u00e7\u00e3o socioemocional, a partir da literatura, pode possibilitar a constru\u00e7\u00e3o de uma dimens\u00e3o humana atrav\u00e9s do texto liter\u00e1rio, que exige um espelhos onde todos possam se reconhecer como sujeitos de suas pr\u00f3pria hist\u00f3ria, desenvolvendo assim, autonomia, autovaloriza\u00e7\u00e3o, autoefic\u00e1cia e sua pr\u00f3pria autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.nossapoesia.com\/poema\/ah-nao-posso-maria-firmina-dos-reis\/\">https:\/\/www.nossapoesia.com\/poema\/ah-nao-posso-maria-firmina-dos-reis\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/teatro\/24-textos-das-autoras\/923-conceicao-evaristo-vozes-mulheres\">http:\/\/www.letras.ufmg.br\/literafro\/teatro\/24-textos-das-autoras\/923-conceicao-evaristo-vozes-mulheres<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/palmares\/pt-br\/assuntos\/noticias\/teatro-experimental-do-negro-ten\">https:\/\/www.gov.br\/palmares\/pt-br\/assuntos\/noticias\/teatro-experimental-do-negro-ten<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-ru-do-manifesto wp-block-embed-ru-do-manifesto\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote hcb-fetch-image-from=\"https:\/\/ruidomanifesto.org\/tres-poemas-de-lucas-litrento\/\" class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"NBDGuyoVAJ\"><a href=\"https:\/\/ruidomanifesto.org\/tres-poemas-de-lucas-litrento\/\">Tr\u00eas poemas de Lucas Litrento<\/a><\/blockquote><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Tr\u00eas poemas de Lucas Litrento&#8221; &#8212; Ru\u00eddo Manifesto\" src=\"https:\/\/ruidomanifesto.org\/tres-poemas-de-lucas-litrento\/embed\/#?secret=NBDGuyoVAJ\" data-secret=\"NBDGuyoVAJ\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Lobo &#8211; Consultor Pedag\u00f3gico A literatura exerce um papel fundamental no contexto cultural e social de um povo. 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